miostatina no Nelore: pesquisas brasileiras e estudos internacionais reacenderam o debate sobre variantes do gene MSTN que aumentam a musculatura em bovinos e seus riscos reprodutivos.
A miostatina é uma proteína que limita o crescimento muscular; variações no gene MSTN podem reduzir esse freio biológico e favorecer a chamada “musculatura dupla”. Relatos técnicos e serviços de extensão, como o CAFRE (Irlanda do Norte), destacam que diferentes mutações têm efeitos distintos: a variante F94L tem sido associada a aumento de musculatura sem grande impacto sobre o parto, enquanto alterações como Q204X e nt821 podem melhorar conformação e rendimento de carcaça, mas também elevar peso ao nascer e exigir maior assistência nas parições.
Evidências de transmissão e limitações
Em agosto de 2026, artigo na revista Animal Genetics descreveu bovinos Hanwoo editados no MSTN por edição genética e a transmissão da alteração aos descendentes. No estudo, nasceram quatro bezerros, todos com uma cópia da mutação herdada da mãe editada; o uso de sêmen de um desses descendentes gerou embriões de geração seguinte que também carregaram a alteração. Os autores não registraram distocias nesse conjunto, mas um dos quatro bezerros morreu no segundo dia de vida por obstrução intestinal. Os próprios pesquisadores apontaram limitações do experimento, que envolveu poucos animais e não permite generalizar a segurança ou viabilidade econômica da edição.
Pesquisa brasileira e resultados reprodutivos
No Brasil, a Universidade Estadual Paulista (Unesp) documentou uma linhagem congênica de Nelore que recebeu uma variante da miostatina do Belgian Blue por meio de cruzamentos orientados por testes de DNA (processo de congenia). A dissertação de Karoline Silva Paulussi (2018) comparou bezerros sem a mutação, com uma cópia e com duas cópias, registrando pesos médios ao nascimento de 31,19 kg, 35,82 kg e 40,46 kg, respectivamente.
As diferenças reprodutivas foram marcantes na população estudada: incidência de partos difíceis foi de 5,4% (sem mutação), 5,7% (uma cópia) e 47,5% (duas cópias). A mortalidade neonatal entre os animais com duas cópias alcançou 37,3%. Esses números referem-se às condições e à população avaliadas no estudo e não podem ser extrapolados sem cautela.
Aplicação comercial
O projeto Nelore Myo, conduzido pelo médico-veterinário Rodrigo Vitorio Alonso e apoiado pela Fapesp e Finep (programas PIPE e PAPPE), comercializa animais e material genético dessa linhagem congênica, oferecendo touros, sêmen e embriões. Segundo a Fapesp, o projeto alcançou animais com mais de 99% do genoma proveniente do Nelore, mantendo a mutação introduzida do Belgian Blue.
Em síntese, as variantes da miostatina mostram potencial para aumentar conformação e rendimento de carcaça, mas estudos demonstram que o número de cópias da mutação influencia fortemente o risco de partos difíceis e mortalidade neonatal. Pesquisas publicadas e iniciativas comerciais ressaltam a necessidade de testes genéticos e planejamento dos acasalamentos antes da adoção em escala.
Fonte: CompreRural