Coffea liberica foi identificada em quintais agroflorestais do nordeste do Pará no âmbito do projeto Café Ancestral Agroecológico no Nordeste Paraense, coordenado pela Embrapa Amazônia Oriental em parceria com a Ufra e a Cooperativa D’Irituia.
O levantamento botânico analisou 57 exemplares recolhidos em oito propriedades de cinco municípios da região do Alto Rio Guamá — Irituia, São Domingos do Capim, Ourém, Capitão Poço e São Miguel do Guamá — e confirmou a presença de duas espécies: Coffea arabica (localmente chamada de “pretinho” e “moca”) e Coffea liberica, conhecida na área como “beirão”. Das amostras, 48 exemplares férteis foram incorporados ao Herbário IAN, da Embrapa Amazônia Oriental, após identificação taxonômica conduzida pela equipe da instituição.
Achados e memória local
Entre os achados de interesse científico estão plantas de C. liberica com frutos vermelhos e amarelos e indivíduos de C. arabica da variedade “moca”, que se destacaram por produzir um único grão arredondado por fruto. Pesquisadores envolvidos incluem a taxonomista Fernanda Ilkiu-Borges de Souza e o pesquisador Osvaldo Kato, com participação do professor José Sebastião Romano (Ufra).
O trabalho integra análises botânicas a registros de memória das famílias agricultoras. Moradores como Agílio Cordeiro Vieiras relataram que os cafeeiros faziam parte das propriedades por gerações, preservados em muitos casos por mulheres da família, que mantiveram práticas de manejo e modos de preparo transmitidos entre gerações.
Produção agroecológica e comercialização
Produtores locais cultivam café em sistemas agroflorestais: Avelino Brás de Oliveira mantém cerca de três mil cafeeiros consorciados com frutíferas e árvores nativas e opera uma agroindústria de torra. A Cooperativa D’Irituia já comercializa grãos torrados no Pará e em São Paulo e iniciou ações para caracterizar o produto, incluindo a construção de identidade visual e o início do processo de registro de marca no INPI, com possibilidade futura de certificação orgânica ou indicação geográfica.
Os pesquisadores ressaltam, porém, que a identificação botânica não basta para comprovar a origem histórica das plantas em relação à introdução do café na região no século XVIII. A equipe aponta a necessidade de aprofundar investigações botânicas e históricas, além de estudar sistemas produtivos que conciliem conservação da biodiversidade, qualidade e viabilidade econômica.
O projeto busca dar visibilidade ao patrimônio agrícola e aos saberes locais, reconhecendo agricultores e agricultoras como protagonistas da conservação in situ desses recursos genéticos.