crime organizado no agro é o foco de um levantamento do Insper Agro Global que mapeia atuação de estruturas criminosas em diversas etapas da cadeia produtiva, como terras, insumos, pecuária, transporte e mecanismos financeiros.
O que o estudo aponta
O working paper do Insper não apresenta uma cifra consolidada, mas descreve como ocorrências antes tratadas isoladamente — furto de gado, roubo de máquinas ou cargas — podem integrar cadeias econômicas clandestinas que envolvem receptação, fraude documental, empresas de fachada, logística interestadual e lavagem de dinheiro. Os pesquisadores destacam limitações metodológicas relacionadas à subnotificação e à fragmentação das estatísticas.
Casos e apreensões citados
O levantamento cita operações oficiais recentes que ilustram a complexidade do problema. Entre janeiro e agosto de 2026, investigações em Mato Grosso apuraram dez carregamentos irregulares de soja retirados de uma propriedade rural, envolvendo funcionários, terceiros e veículos.
Em março de 2026, o Ministério da Agricultura apreendeu cerca de 28 toneladas de defensivos agrícolas com indícios de irregularidade em um galpão clandestino em Patos de Minas (MG), ação vinculada à Operação Dólos. Em agosto de 2026, uma operação em Mato Grosso identificou aproximadamente 217 toneladas de fertilizantes adulterados, avaliadas em cerca de R$ 645 mil; autoridades apontaram problemas de rotulagem, rastreabilidade e indícios de manipulação.
O estudo também menciona investigações sobre estruturas empresariais utilizadas para ocultação patrimonial. Em setembro de 2026, a Receita Federal informou que a operação chamada Crédito Oculto apurava indícios de ocultação dos reais controladores de uma empresa sucroalcooleira e transações envolvendo uma distribuidora de combustíveis; segundo a Receita, uma empresa financeira ligada ao caso movimentou aproximadamente R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025. As autoridades qualificaram os elementos como indícios sob investigação, não como condenação.
Risco para exportações e rastreabilidade
O pesquisador Alberto Pfeifer, em entrevista publicada em 14 de outubro de 2026, alertou que vínculos comprovados entre empresas ou operações brasileiras e organizações criminosas poderiam gerar questionamentos por parte de compradores e instituições financeiras estrangeiras — um risco futuro, segundo o pesquisador, e não uma barreira atualmente aplicada. Em junho de 2026, o Office of Foreign Assets Control (EUA) incluiu PCC e Comando Vermelho em marcações como FTO, medida válida no sistema norte-americano e sem efeito automático sobre classificações no Brasil.
Como resposta, o Insper recomenda maior integração entre órgãos públicos, compartilhamento de inteligência, acompanhamento dos fluxos financeiros e aperfeiçoamento da rastreabilidade. Para produtores e empresas, o estudo ressalta controles básicos já conhecidos: verificação da origem de insumos, manutenção de documentação fiscal, conhecimento sobre fornecedores e registros de movimentação de veículos e estoques. Em propriedades e elos maiores da cadeia, sistemas de controle de acesso, pesagem e homologação de fornecedores podem reforçar a capacidade de identificar fraudes.
O trabalho reafirma que não é possível, com os dados levantados, calcular um total consolidado do mercado ilegal no agro e que a presença de práticas criminosas em determinados casos não implica contaminação generalizada do setor.
Fonte: CompreRural