Crédito rural em queda contrasta com previsão de safra recorde e ajuda a explicar por que parte dos produtores enfrenta falta de liquidez apesar do aumento da produção.
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima uma safra de 367,1 milhões de toneladas de grãos na temporada 2026/27, crescimento de 1,4% em relação ao ciclo anterior. Mesmo com essa projeção de colheita elevada, levantamentos setoriais apontam redução significativa do financiamento disponível para o setor.
Queda nos desembolsos em São Paulo
Dados da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), divulgados pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), mostram que os desembolsos de crédito rural em São Paulo entre julho e setembro somaram R$ 5,8 bilhões em 9.086 contratos. No comparativo com o mesmo período da temporada anterior, o valor desembolsado recuou 41,9% e o número de operações caiu 37,6%, abrangendo custeio, investimento, comercialização e industrialização.
Para muitos produtores, as despesas com insumos, preparo do solo e demais custos ocorrem antes da entrada da receita pela venda da produção. A retração do crédito nesse momento do calendário pode obrigar o uso de capital próprio, redução de investimentos ou a busca por alternativas de financiamento, o que afeta a capacidade de iniciar o ciclo seguinte.
Dívida acumulada e falta de liquidez
Além da menor disponibilidade de crédito, indicadores de crédito mostram piora na qualidade das carteiras. Relatório citado em reportagem da revista Veja, com base em dados do Banco Central, indica que a proporção de débitos vencidos há mais de 90 dias entre produtores pessoa física alcançou 9,7% em agosto, o maior nível da série mencionada.
Quando parte da receita de uma safra precisa ser destinada ao pagamento de dívidas antigas, sobra menos caixa para custear o novo plantio. Os bens da propriedade — terra, máquinas e estoque — representam patrimônio, mas não garantem liquidez imediata para honrar vencimentos.
Clima adverso, perdas de produtividade ou postergação da comercialização também podem agravar o descompasso entre produção e disponibilidade de recursos, especialmente em propriedades com compromissos elevados.
Os números reunidos mostram que o avanço da produção nacional não se traduz automaticamente em maior capacidade financeira para todos os produtores. O resultado operacional de cada propriedade dependerá dos preços obtidos, dos custos enfrentados, do acesso ao crédito e do nível de endividamento acumulado.
Fonte: CompreRural